Pela graça de Deus, tenho me envolvido com a igreja desde os meus oito anos. Minha infância, adolescência e juventude foram fortemente marcadas pelo Reino de Cristo, e dou graças a Deus por isso. Hoje, pela graça de Deus, sou pai de família e continuo servindo à igreja de Cristo na mesma denominação na qual comecei. Desde a minha infância, sou assembleiano mas também fui pastor em uma igreja independente e depois congreguei em outra Assembleia antes de retornar à minha antiga denominação. Sou membro da AD Belém, na cidade de Guaratinguetá, e somos uma igreja que segue a linha do pentecostalismo clássico. Para quem não está acostumado com o termo, pentecostalismo clássico é o que conhecemos como pentecostalismo de “primeira onda”. Esse movimento iniciou-se no século XX, tendo forte ênfase no batismo no Espírito Santo e nos dons espirituais. É importante lembrar, também, que o movimento pentecostal trabalha com uma forte ênfase na Palavra de Deus e no ensino.
Um motivo de preocupação
Antes de ser um pentecostal, sou um cristão e, por causa disso, pela graça de Deus, já transitei por igrejas de outras denominações. Já conheci igrejas batistas, presbiterianas, neopentecostais e até mesmo igrejas que se consideram livres e independentes, no sentido de estarem fora de qualquer tipo de denominação. Passando por essas igrejas, percebi o quanto a graça de Deus é multiforme.
Porém, como nem tudo são flores, percebi também que em cada ambiente existe muito orgulho — o qual chamo aqui de orgulho denominacional (ou orgulho religioso, se você preferir). Em alguns lugares, consigo perceber claramente que alguns membros, e até mesmo líderes, tentam “puxar a brasa para a sua sardinha”, como se só aquela igreja fosse a certa. Mas seria essa a vontade de Cristo? Cito aqui uma frase do bispo inglês J. C. Ryle:
“Homens de todos os segmentos da Igreja de Cristo são capazes de pensar que nenhum bem pode ser realizado neste mundo, a menos que o seja por seu próprio grupo ou denominação. Suas mentes se mostram tão pequenas que não conseguem conceber a possibilidade de trabalhar sob qualquer outro padrão senão aquele ao qual estão acostumados.”
Isso é muito sério. Membros e líderes de igreja muitas vezes colocam suas denominações acima do próprio Cristo, e tudo o que se coloca acima de Deus só pode ser chamado de uma coisa: ídolo.
Um ponto a esclarecer
Neste artigo, estou falando exclusivamente de igrejas sérias. Não estou citando seitas nem qualquer tipo de organização que se denomine igreja, mas tenha se afastado do Evangelho. Durante a história, três marcas caracterizaram a existência da igreja:
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Fidelidade à Palavra de Deus;
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Administração correta dos sacramentos (Batismo e Santa Ceia);
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Aplicação da disciplina eclesiástica.
Se uma organização se denomina igreja, mas não mostra esses frutos, não é uma igreja séria e bíblica. Pode ser qualquer outro tipo de coisa, menos uma igreja. Desses três pontos, o primeiro, com certeza, é o mais importante. Uma igreja verdadeira deve ser marcada pela fidelidade às Escrituras. A Bíblia Sagrada deve ser o centro da vida da igreja, e isso deve ser revelado dentro e fora dela. Em outras palavras, o evangelho deve marcar a vida da igreja muito mais do que os símbolos de fé de uma denominação.
Não é difícil de entender
Denominações cristãs são, simplesmente, uma forma de organização. Quando você estuda a história da igreja, começa a perceber que toda denominação foi fundada por causa de conclusões e pensamentos. Ao lerem o texto bíblico, teólogos fizeram suas interpretações e, em alguns pontos, houve divergências. Essas divergências causaram certos tipos de cismas (separação), e daí foram fundadas igrejas distintas, cada uma com seu método teológico e organizacional.
Com o passar do tempo, esses pensamentos começaram a ser elaborados e sistematizados, e assim surgiram documentos que explicavam — e ainda explicam — como as denominações devem se comportar. Por exemplo: uma igreja presbiteriana ou batista regular pode seguir os Símbolos de Fé de Westminster, enquanto uma Assembleia de Deus segue a Declaração de Fé das Assembleias de Deus. A Igreja Metodista segue seus documentos oficiais, enquanto a Quadrangular segue sua própria Declaração de Fé.
Esses documentos servem como um auxílio para os membros e líderes da igreja, tratando de assuntos como organização, comunhão e entendimento bíblico. A meu ver, não há problema nenhum nisso, pois, pela graça de Deus, existe igreja para todo mundo. E, de fato, é isso que acontece: certo tipo de pessoa vai se sentir bem em uma igreja pentecostal, outra se sentirá melhor em uma igreja reformada, e assim por diante. Minha pergunta é: não deveríamos dar graças a Deus por isso? Se a igreja é bíblica e caminha conforme o que Jesus ensinou, que ninguém coloque barreiras onde Cristo não colocou. Outro ponto importante a ressaltar é que a igreja de Cristo não é homogênea. Em outas palavras, não existe igreja só de velhinhos, só de jovens, só de surfistas, entre outras coisas. A igreja é uma mistura de todo tipo de gente para a glória de Deus.
O problema do orgulho
O problema, como sempre, é o orgulho. Muitas pessoas vão se levantar e dizer: “Minha igreja é a certa! Somente na minha igreja existe salvação!”. Isso, na verdade, é orgulho misturado com exclusivismo. Deus não nos chamou para defender placa de igreja; Deus nos chamou para pregar e defender o Evangelho.
Nossa relação com pessoas de outras denominações deveria ser muito mais leve. Hoje, pela graça de Deus, tenho amigos e irmãos das mais diversas igrejas e, quando sentamos para conversar, o assunto não é como nossas igrejas se comportam, mas sim Cristo e o seu Reino. Às vezes, perdemos a mão e arriscamos entristecer as pessoas. Corremos o risco de fazer algo que é o contrário do que Jesus ensinou. Os discípulos certa vez passaram por isso:
³⁸ “Mestre”, disse João, “vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos. “
³⁹ “Não o impeçam”, disse Jesus. “Ninguém que faça um milagre em meu nome, pode falar mal de mi logo em seguida, ⁴⁰ pois quem não é contra nós está a nosso favor.
Marcos 9:38-40
Você percebe o que está acontecendo aqui? Aquele homem que estava expulsando demônios não fazia parte da “turminha” dos discípulos, e isso os incomodou. Porém, para Jesus, mesmo que aquele homem não andasse com eles, estava fazendo a vontade de Deus. O ponto aqui é que ele expulsava demônios “no nome”. No meio do ensino aos discípulos, Ele fala a frase tão conhecida: “pois quem não é contra nós está a nosso favor”. Isso fere nosso orgulho e arrogância. Jesus estava ensinando aos discípulos que o que importava ali era o Nome, e não o tipo de organização que eles adotaram. Na visão bíblica, não importa o tipo de denominação adotada, mas sim a luta e o esforço pelo Evangelho.
Quando olhamos para Apocalipse, por exemplo, vemos ali sete igrejas. Elas eram distintas umas das outras, porém todas tinham algo em comum: Cristo. Tudo o que faziam era por Cristo, e é por esse motivo que o próprio Jesus está analisando e supervisionando Suas igrejas. Em resumo, as cartas dizem o seguinte:
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Éfeso: Era uma igreja marcada pela perseverança e discernimento doutrinário, porém abandonara o primeiro amor.
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Esmirna: Mostrava fidelidade no sofrimento e na pobreza e não tinha nenhuma repreensão por parte de Jesus.
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Pérgamo: Retinha o nome de Cristo em lugar difícil, porém tolerava os falsos ensinos.
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Tiatira: Uma igreja marcada por amor, fé, serviço e paciência progressiva, porém tolerava a imoralidade.
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Sardes: Alguns poucos crentes não haviam manchado suas vestes. Ela tinha fama de viva, mas estava morta.
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Filadélfia: Uma igreja que guardou a palavra e não negou o nome de Cristo. Esta também não tem nenhuma repreensão por parte do Senhor.
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Laodicéia: Por último, vemos Laodicéia, uma igreja que não tem nenhum elogio, mas é repreendida devido à autossuficiência, cegueira e mornidão espiritual.
Em nosso tempo, as igrejas passam pelos mesmos problemas. Umas se achegam mais perto da verdade, enquanto outras têm mais dificuldade em certas questões. Mas o ponto é o seguinte: todas as sete são chamadas igrejas e estão sob o olhar perscrutador de Cristo. É Cristo quem é o Cabeça delas e as levará a um bom fim. Da mesma forma, se as denominações têm suas diferenças, Cristo opera em cada uma delas com Sua multiforme graça.
C. S. Lewis nos ajuda a entender a questão
Um dos autores que mais admiro é C. S. Lewis. Você deve se lembrar dele pela ficção As Crônicas de Nárnia ou por seu livro mais famoso, Cristianismo Puro e Simples. É nesse segundo livro que Lewis trata da questão com muita integridade. No prefácio, Lewis define o que seria o termo “cristianismo puro e simples”:
“…é, antes, como um saguão de entrada a partir do qual várias portas se abrem para diversos cômodos. O saguão é uma sala de espera, um lugar a partir do qual se pode experimentar as várias portas.”
Lewis explica que, quando alguém se converte ao cristianismo, inicialmente se encontra no saguão de uma casa. À medida que o tempo passa, ele escolherá uma porta e morará ali. Porém, essa porta faz parte da mesma casa chamada “Cristianismo”. Era assim que Lewis enxergava as denominações. Ele continua dizendo:
“Quando você tiver alcançado seu próprio cômodo, seja gentil com aqueles que escolheram portas diferentes da sua e também com aqueles que ainda não estão no saguão”.
O autor disse isso mesmo sendo um cristão da Igreja Anglicana. Em seu livro, Lewis não estava preocupado em defender sua denominação, mas em falar do cristianismo que havia mudado sua vida. Para concluir, é por essas razões que acho saudável os cristãos viverem em união, não somente dentro de suas igrejas locais, mas também entre outras denominações. Há alguns anos, fui convidado para assistir a uma série de pregações em uma igreja presbiteriana. Era um evento de dois dias com o objetivo de exaltar a Palavra de Deus. Ali havia presbiterianos, batistas, metodistas, pentecostais e pessoas de denominações que eu nem sabia que existiam. O saldo final foi um tempo de comunhão muito gostoso e sadio. Todos ali se amavam, independentemente das diferenças teológicas. Precisamos ser assim. Não defenda a placa de sua igreja, mas sim a Cristo. Encerro este artigo com um versículo do apóstolo Paulo:
⁴ Pois quando alguém diz: “Eu sou de Paulo”, e outro: “Eu sou de Apolo”, não estão sendo mundanos?
⁵ Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um.
⁶ Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer;
⁷ de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento.
⁸ O que planta e o que rega têm um só propósito, e cada um será recompensado de acordo com o seu próprio trabalho.
⁹ Pois nós somos cooperadores de Deus; vocês são lavoura de Deus e edifício de Deus.
¹⁰ Conforme a graça de Deus que me foi concedida, eu, como sábio construtor, lancei o alicerce, e outro está construindo sobre ele. Contudo, veja cada um como constrói.
¹¹ Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo.
1 Coríntios 3:4-11
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