Quem é o homem que teme o Senhor?

“Quem é o homem que teme o Senhor? Ele o instruirá no caminho que deve seguir.”

Salmos 25:12

Contexto

O Salmo 25 é um dos mais belos escritos do hinário de Israel. O autor desse salmo foi o salmista Davi, e o salmo é basicamente uma oração por auxílio divino. Davi está solicitando auxílio a Deus em tempos de necessidade e perseguição. Possivelmente, Davi escreveu esse salmo durante a rebelião de seu filho Absalão ou quando fugia do rei Saul. O foco do estudo de hoje é o versículo 12, mas é relevante pesquisarmos o que o contexto diz, já que o versículo que iremos observar está bem no centro do salmo. Segundo John MacArthur, esse salmo de 22 versos é dividido em três sessões importantes:

  1. As orações em tempo de angústia (25.1-7).

  2. O louvor em períodos de confiança (25.8-15).

  3. A petição por socorro na adversidade (25.16-22).

O texto que iremos abordar está enquadrado na segunda sessão, sobre louvor em períodos de confiança. Davi eleva sua alma a Deus e tem uma atitude de total dependência no meio de dificuldades e adversidades (v. 1). Diante dos inimigos, Davi expressa sua total confiança em Deus e declara que os que esperam no Senhor não serão envergonhados (v. 2-3). A partir do verso 4, aparece no texto a metáfora do caminho. É importante pensarmos nessa metáfora porque a palavra “caminho” e seu sinônimo “vereda” aparecem seis vezes nesse salmo (v. 4, 8, 9, 10, 12). Esse caminho, segundo o salmista, tem algumas características:

  • É possível saber e ser ensinado sobre o caminho (v. 4).

  • Esse caminho é ensinado aos pecadores (v. 8).

  • Esse caminho é ensinado aos mansos (v. 9).

  • Esse caminho é reservado para aqueles que guardam o pacto e a aliança (v. 10).

  • Esse caminho é ensinado mediante o temor a Deus (v. 12).

Devido à revelação desse caminho de misericórdia e graça, o salmista esperava o Senhor todo o dia (v. 5). Davi orava para que Deus não se lembrasse dos pecados de sua mocidade, mas que olhasse para ele com misericórdia, bondade e amor (v. 6, 7, 11). Para o salmista, o temor a Deus também é importante, pois faz com que a alma repouse em prosperidade, alcançando a benevolência do Senhor (v. 12–14). Davi confiava ansiosamente em Deus, sabendo que ele olhava para suas aflições (v. 15–18). A lógica de Davi é bem clara: se Deus olha para mim e me conhece, também olha e conhece meus inimigos. Isso está claro no versículo 19, quando ele pede a Deus que olhe para seus inimigos que se multiplicam. Os últimos versículos exaltam a Deus por ser aquele que guarda e redime tanto Davi como seu povo. Em resumo, o salmo é uma oração de Davi em busca do livramento dos inimigos e do livramento do pecado. Davi espera pela misericórdia do Senhor enquanto clama para que Deus o guie pelo caminho correto.

A Pergunta do Salmista

Agora, vamos redobrar a atenção. Na literatura bíblica, nada é escrito por um acaso. E é bem no meio do salmo que encontramos um tesouro. O salmista, no meio de sua oração, simplesmente pergunta: “Quem é o homem que teme ao Senhor?”. Outras traduções trazem: “Qual é o homem que teme ao Senhor?”. Geralmente, na oração fazemos perguntas, mas o tipo de pergunta de Davi é essencial para podermos entender o coração do salmista. Em momentos difíceis, quando oramos, temos as seguintes questões: Por quê? Por que eu? Por que agora? Por que não agora? Nossos questionamentos geralmente são sempre voltados para nós mesmos e buscam entender o porquê de Deus ter feito algo ou nos ter colocado em um dissabor. Nesses momentos, nem nos lembramos da teologia paulina que diz:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Romanos 12:2

A vontade de Deus é boa, agradável e perfeita, ainda que não percebamos isso. No meio do sofrimento, dor e solidão, Deus também cuida de nós, ainda que pareça que ele se esconda. Nesse salmo, Davi parece entender isso. O homem segundo o coração de Deus estava compreendendo que Deus não estava ausente dos seus problemas e dificuldades. É por isso que ele ora com tanta confiança. A oração verdadeira do coração do salmista vem do entendimento de quem Deus é. Isso ensina que meio dos nossos porquês, Deus também se faz presente. Mas voltemos à pergunta do salmista.

Quem é o homem que teme o Senhor?

Na pergunta, Davi parece estar pensando em quem é esse homem. Davi poderia estar pensando nele mesmo ou procurando um exemplo de fidelidade e temor em qualquer tipo de pessoa. É como se ele pensasse: quem pode alcançar isso? Quem pode chegar a esse patamar de fidelidade? Sendo ele ou outro, esse homem de fato teme. Vamos pensar um pouco nesse termo. A palavra temer (ירא yārēʾ) no hebraico não significa simplesmente ter medo ou receio. No contexto bíblico, ser temente a Deus se refere a alguém que reconhece a grandeza e o poder de Deus e respeita profundamente seu nome, vontade e santidade. Esse tipo de temor se adéqua mais à reverência que leva à verdadeira obediência e adoração. Então, esse homem que teme ao Senhor é conhecido agora como aquele que honra e adora a Deus. Nesse ponto, fazemos uma pergunta importante: quando se trata de reverência e adoração a Deus, quem foi o homem que mais escreveu sobre isso nas Escrituras? Foi o próprio Davi. Baseado nessa informação, minha tendência é concordar com alguns estudiosos que entendem que, quando Davi faz essa pergunta, está pensando nele mesmo. Seja qual for a solução exegética, ela não muda o sentido do texto, que está demonstrando o que acontece com um homem temente a Deus. Além disso, essa pergunta faz com que o leitor do salmo analise sua própria vida, se perguntando se é um exemplo de fidelidade e devoção. Ao ler o texto, podemos nos perguntar: sou um homem ou mulher temente a Deus?

Outra coisa importante a se pensar é no objeto do louvor do salmista. Se o salmista teme, isso é direcionado a alguém, e não é aos homens, mas sim a Deus. Aqui existe um contraste interessante entre o temor de Deus e o temor aos homens. Em situações complexas, muitas vezes somos colocados nessa encruzilhada. Isso aconteceu, por exemplo, com os apóstolos. Vejamos:

“Porém, respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.”

Atos 5:29

Os líderes queriam que eles parassem de falar no nome de Jesus, mas eles estavam ligados a outro tipo de obediência. Quando eles compararam o temor a Deus com o temor dos homens, escolheram aquilo para o qual o Espírito Santo os guiava. Essa escolha fez com que eles sofressem e padecessem por amor a Jesus, mas, no final, Cristo foi glorificado. Um cristão, ao estar na encruzilhada da obediência, sempre escolherá servir a Deus em temor, não importa as consequências.

Ele o instruirá no caminho que deve seguir

Para o salmista, servir a Deus em temor tinha uma consequência e, nesse caso, a consequência era boa. O temor a Deus deságua em instrução. Isso nos lembra do versículo tão conhecido de provérbios que diz:

“O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é entendimento.”

Provérbios 9:10

Quem teme a Deus recebe instrução e sabedoria acerca do caminho que deve seguir. Não sabemos e nem conseguimos controlar o nosso futuro, mas, o fato de você estar nas mãos de um Deus que te instrui não te conforta? Esse ensinamento vem da parte do Senhor. Segundo o Salmo 23, outro da autoria de Davi, Ele é nosso pastor que ensina e guia seu povo, e nós, como ovelhas totalmente necessitadas do acompanhamento e cuidado do nosso Supremo Pastor. É por isso que a metáfora do caminho e da vereda aparece tanto nesse texto. O modo como a gente caminha e o modo como iremos terminar nossa caminhada é importante aqui. Caminho é o conjunto de elementos e decisões trabalhando para instruir nosso ser. Não é uma simples escolha do que comer ou do que vestir, mas é um estilo de vida. Nossa vida é instruída por Deus ou por outra coisa? Somos guiados pelo poder da palavra ou pelos hábitos consumistas? Estamos alicerçados e plantados no corpo do Senhor que é a igreja ou o mundanismo guia nossas vidas? Cristão, por onde você tem caminhado? Quais são as marcas que definem o seu caminho? Escolha o caminho certo, segundo a palavra de Deus, pois o Senhor endireita as suas veredas (Pv 3:6).

Até aqui, entendemos que todo cristão deve temer a Deus e, temendo a Deus, esse mesmo cristão recebe instrução quanto ao caminho que deve seguir. Perceba que não há objeções aqui. O cristão deve de fato escolher um caminho e conta com a ajuda de Deus para isso. Esse caminho pode estar relacionado a diversas coisas no âmbito geral, como vida espiritual, vida material, relacionamentos, igreja, vida social, entre outras coisas. Mas, como isso acontece? Como Deus nos instrui?

Deus nos instrui através da Palavra

Outro salmo belíssimo do saltério de Israel é o 119. Nele, vemos a palavra de Deus sendo exaltada. Para o salmista, a palavra de Deus é aquilo que instrui o seu coração e sua vida. Não sabemos quem escreveu o Salmo 119, mas a tradição diz que provavelmente seja Davi, Esdras ou Ezequias. Seja qual for o autor, uma verdade transparece no salmo: Deus usa a palavra dele com instrução. Em outras palavras, quando queremos ser instruídos no caminho que devemos andar, vamos até a palavra de Deus, e é a palavra que nos dá a resposta. Para isso acontecer, duas coisas são necessárias:

Leitura

Talvez você pense: mas isso não é óbvio? Eu até concordaria com você se eu não soubesse, mediante pesquisas, que cristãos não leem tanto a Bíblia como deveriam. A LifeWay Research, especializada em pesquisa evangélica, concluiu que apenas 32% dos cristãos que frequentam a igreja leem a Bíblia todos os dias. A cada 10 pessoas dentro da igreja, somente 3 fazem a leitura diária das Escrituras. Alguns estudiosos e líderes de igreja dizem que nossa geração sofre do que eles chamam de “analfabetismo bíblico”. De fato, se você não ler a Bíblia, será impossível viver conforme a palavra de Deus. Se a Bíblia não é sua paixão e sua busca, como você receberá instrução? O ensino da parte de Deus vem através de leitura. Aliás, Deus nos deu um livro. O cristianismo é baseado em palavras que foram proferidas e escritas através das épocas. Se a geração atual não se envolve com leitura, nós, como povo santo, devemos persistir em ler e ensinar nossos filhos a fazer o mesmo. Se não fizermos isso, a porcentagem de cristãos que não se alimentam da palavra crescerá através dos anos. Que Deus tenha misericórdia das próximas gerações.

Meditação

Outra coisa importante que devemos fazer para receber instrução da parte de Deus é meditar na palavra. Alguns cristãos acendem um sinal de alerta quando leem sobre meditação porque o que vem à mente é a meditação oriental; muitas vezes se pensa numa pessoa com pernas cruzadas, mãos sobre os joelhos e recitando um mantra para esvaziar a mente. A meditação na palavra de Deus é diametralmente contrária a isso. Enquanto a meditação oriental (ou qualquer outro tipo de meditação) ensina a esvaziar a mente, a meditação cristã nos ensina a encher a mente com a palavra de Deus, e é aqui que reside a grande diferença. Se na leitura da Bíblia descobrimos um tesouro, na meditação começamos a explorar esse tesouro. A meditação na palavra de Deus faz com que o texto bíblico se torne parte de nossa vida. Esse hábito vem se perdendo através do tempo; entretanto, os cristãos antigos sempre estavam meditando. Para a meditação, geralmente eles escolhiam um versículo ou pequena seção e iam pensando sobre isso através do dia. Através dessa prática, o texto se tornava vivo para eles, e é por isso que muitos deles se tornaram escritores tão habilidosos. Quando escreviam sobre o que liam, sabiam o que estavam dizendo, porque o texto já estava selado no coração deles.

Deus nos instrui através da Oração

Outro meio de graça importantíssimo para instrução é a oração. Parece clichê, mas todo cristão deveria orar. Nosso Senhor orava e ensinou a orar. Os apóstolos e profetas também oravam. E nós, como igreja, o que devemos fazer? Orar! Nesse sentido, a oração é importante porque é algo que nasce da leitura e meditação. É impressionante como a oração flui melhor depois de uma boa leitura e de uma meditação profunda em um versículo ou verdade bíblica. Paulo, por exemplo, fez isso quando estava escrevendo sobre o evangelho. Geralmente, ele começava pensando em uma verdade preciosa e depois irrompia em uma doxologia (louvor e glorificação da grandeza e majestade divinas). Isso acontece, por exemplo, em Romanos 11:33-36, onde o apóstolo escreve:

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém!

Romanos 11:33-36

Não é precioso perceber isso? A palavra de Deus e a oração trabalham juntas no propósito da instrução. Se queremos conhecer o caminho de Deus para nós, devemos ler e orar.

Deus nos instrui através da Igreja

Para terminar nosso estudo, vou citar um dos hábitos mais relevantes para todo cristão que deseja ser instruído por Deus: a igreja. Sim, a igreja é importantíssima para a vitalidade do cristão. Nela, recebemos alimento (pregação), oramos, cultivamos amizades, nos preocupamos com o reino. A igreja é o lugar onde aprendemos a amar como Jesus nos ensinou. É o lugar onde amamos pessoas que são diferentes de nós, pois a igreja não é homogênea. E é no meio de todo esse contexto de amor que recebemos a instrução através da palavra pregada, aconselhamentos, estudos, orações individuais ou coletivas. Enfim, tudo dentro da igreja ensina, desde a oração inicial no culto até os louvores e a aplicação da palavra pregada. É realmente triste pensar que atualmente os cultos são negligenciados. Há um movimento que ensina seus seguidores a abandonarem a igreja ou só congregarem em casa, pois, segundo eles, igreja é somente uma organização. Esses falsos líderes talvez nunca tenham experimentado um culto de verdade, e não estou dizendo que experimentar o culto deve ser algo espalhafatoso. Culto é simples, e parece que quanto mais simples, melhor. Oração, louvor, pregação e momentos especiais de ceia e batismo. Não precisamos mais que isso. Parece que os líderes do movimento dos “desigrejados” não tem ciência dessas coisas. Porém é nessa organização e nessas atividades que o Espírito de Deus se faz presente, nos transformando e nos mudando dia após dia.

Esse é o tipo de homem ou mulher que teme a Deus. É o cristão verdadeiro e genuíno que busca a Deus através da palavra, oração e comunhão. Minha oração no fim desse estudo é que Deus trabalhe em mim e em você para que nos tornemos cada vez mais tementes a Deus e assim poderemos conhecê-lo cada vez mais.

Que o Senhor Jesus te abençoe e te guarde!

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